"Tarifaço" abre caminho do Brasil para novos parceiros comerciais

 

O presidente dos EUA, Donald Trump, sustentou a promessa de campanha ao anunciar hoje o "tarifaço" para a importação de produtos de diversos países. A decisão tomada pelo segundo principal parceiro comercial do Brasil deve abrir os olhares do governo e de exportadores para outros mercados.
 

 

O que aconteceu

Governo dos EUA anunciou tarifas globais de importação. Idealizada por Donald Trump desde a campanha eleitoral, a taxação já afetava grandes parceiros comerciais norte-americanos, a exemplo do Canadá e do México. Segundo o republicano, as novas definições miram países que "roubaram" dos Estados Unidos.
 

Casa Branca vê tarifas elevadas do Brasil em diversos setores. Em relatório publicado no início desta semana, o USTR, representante Comercial dos EUA, afirma que os exportadores norte-americanos "enfrentam incertezas significativas no mercado brasileiro" devido às tarifas aplicadas aos produtos enviados ao território nacional.
 

  "O Brasil impõe tarifas relativamente altas sobre as importações em uma ampla gama de setores, incluindo automóveis, peças automotivas, tecnologia da informação e eletrônicos, produtos químicos, plásticos, máquinas industriais, aço, têxteis e vestuário."
- Relatório do USTR
 

EUA são o segundo principal parceiro comercial do Brasil. Somente em 2024, os produtos norte-americanos responderam por 15,5% nas importações recebidas pelo Brasil. Por outro lado, 12% das exportações nacionais foram destinadas aos EUA. Entre todas as vendas, os destaques ficam por conta do petróleo bruto, do ferro e aço, das aeronaves e do café.
 

"Tarifaço" abre janela para a entrada em novos mercados. Com as tarifas mais altas ao vender para os Estados Unidos, os exportadores brasileiros podem ganhar espaço em outras nações também alvejadas na guerra comercial. "O Brasil pode ter na Europa, que também vai pensar em medidas de retaliação, uma oportunidade interessante, até pelo avanço do acordo entre o Mercosul e a União Europeia", avalia Pedro Brites, professor de Relações Internacionais da FGV.
 

  "A guerra comercial pode se tornar uma oportunidade estratégica, caso o Brasil amplie acordos bilaterais e regionais."
- Hugo Garbe, professor de economia da Universidade Mackenzie
 

Realocação para o etanol tende a ter baixa complexidade. Alvejado pelas tarifas recíprocas da Casa Branca, o biocombustível nacional, fabricado a partir da cana-de-açúcar, é mais sustentável e pode encontrar facilmente outros importadores. "Isso pode abrir portas em países da Ásia, Europa e até África, onde há maior preocupação ambiental", prevê Garbe.
 

Bens industrializados e aço devem sofrer maior resistência. Diferentemente do que acontece com as commodities agrícolas, com os derivados de petróleo e com o etanol, o encontro de novos compradores para peças aeronáuticas e produtos semiacabados de ferro ou aço é mais difícil. Os dois segmentos estão entre as três mercadorias mais exportadas pelo Brasil aos EUA.
 

  "Nossa pauta exportadora é muito ancorada nos produtos vindos do agronegócio e do setor extrativista. Perder um parceiro importante nesse sentido é de difícil reposição, porque você não tem outros mercados que absorvam esses setores."
- Pedro Brites, professor de Relações Internacionais da FGV
 

Entrada imediata das tarifas é recebida com preocupação. O curto espaço para aperfeiçoar as estratégias é visto como empecilho para os exportadores, que já têm contratos firmados com os compradores internacionais. "É provável que a gente veja a partir do segundo semestre um impacto significativo sobre esses setores [alvos das taxas]", estima Brites.
 

Haddad cita "posição privilegiada" do Brasil para enfrentar guerra comercial. Em entrevista ao jornal Financial Times, o ministro da Fazenda destacou o vínculo nacional com os três grandes blocos econômicos do mundo. Na ocasião, o Brasil ainda não havia sido alvo de nenhuma medida exclusiva assinada por Trump.
 


Negociação

Governo tenta limitar efeitos nocivos do "tarifaço" de Trump. A tentativa de negociar com os Estados Unidos é o primeiro passo defendido pelo presidente Lula. Em entrevista coletiva no último sábado, no Vietnã, o chefe do Executivo garantiu que o governo vai "gastar todas as palavras do dicionário de negociação" para debater o assunto.
 

Negociação com os EUA ocorrerá na próxima semana. O encontro na tentativa de formalizar um acordo bilateral foi marcado em telefonema entre ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira e representante de Comércio da Casa Branca, Jamieson Greer. A conversa aconteceu horas antes do anúncio das tarifas.
 

Lula não descarta ligação para tratar o tema com Donald Trump. Na mesma entrevista, realizada antes de retornar para o Brasil, ele disse esperar que o presidente dos EUA deixe as divergências políticas de lado. "Como chefe de Estado, a gente não coloca as nossas questões ideológicas na mesa. A gente coloca os interesses do Estado brasileiro e do Estado americano", afirmou.
 


Retaliação

Congresso avança por reciprocidade a medidas comerciais. Preocupados com a imposição das tarifas dos EUA, aliados do governo e opositores se uniram para aprovar no Senado o PL (Projeto de Lei) 2.088/2023, que estabelece critérios para a reação a barreiras e imposições comerciais de nações ou blocos econômicos contra o Brasil.
 

Proposta segue para a análise da Câmara dos Deputados. Aprovado no Senado em regime de urgência, o texto autoriza o Poder Executivo a adotar medidas proporcionais contra a imposição de tributos, taxas ou restrições sobre importações de bens ou serviços, a suspensão de concessões comerciais ou de investimentos e a suspensão de concessões relativas a direitos de propriedade intelectual.
 

Ingresso na OMC será alternativa antes da reciprocidade, diz Lula. A avaliação do presidente considera a possibilidade de "brigar" na Organização Mundial do Comércio ou aderir à reciprocidade contra as tarifas, caso as negociações não resultem em um acordo plausível. "Não teremos nenhuma preocupação de recorrer à OMC, que é o lugar onde os problemas comerciais deveriam ser resolvidos. Se não for resolvido, nós temos o direito de impor reciprocidade", disse Lula.
 

Iniciativa na OMC deve ser formada por ações conjuntas e unilaterais. A tentativa de barrar as violações causadas pela guerra comercial exige diferentes estratégias diplomáticas. "A união multilateral aumenta a pressão diplomática e sinaliza um compromisso com o comércio justo", reconhece Garbe. Entre os aliados para combater o 'tarifaço', estão o Brics, a União Europeia, o México e o Canadá.


 

 

 

Fonte: economia.uol

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